“Pior que uma mulher que fala o que pensa, só uma mulher que escreve.”
Martha Medeiros
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2 years ago
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(Não) Esteja

Você faz eu me sentir a pior pessoa do mundo. Assim, desse jeito mesmo, um lixo qualquer sem valor. Me faz ter vontade de acordar a minha mãe de madrugada e pedir pra ela me velar, caso contrário eu tomaria fácil uma cartela inteira de comprimidos. Ás vezes eu penso que, sei lá, talvez eles me tirassem a dor da alma. Talvez eles me livrassem dessa ruguinha que não sai do meio da minha testa. E a cada mudança de idéia, e de humor, e de sensatez que você me enfia goela abaixo, eu sinto como se meu coração me implorasse, me pedisse baixinho e cansado “por Deus, pare de insistir!”. Daí eu visto a armadura e lembro que eu prometi pra nós dois que não desistiria, que seria pra sempre e “eu só não vou estar com você quando você não quiser que eu esteja”. Mas agora, ali onde as nuvens estão quase se fechando, prenunciando um novo início de tempos nublados, acho que eu consigo ler algo como “não quero que esteja comigo”. Então fim. Isso, automaticamente, me faz desistir de qualquer promessa. Não quero ser um peso ao seu lado, não quero que me arraste como um fardo indesejado. Quero ficar pra tornar as coisas melhores, e mais fáceis, e dizer que você é maravilhoso de todas as formas quando teima em pensar o contrário. Minhas palavras, quase nenhuma delas, toca em você mais. Você desenvolveu uma espécie de escudo contra o que eu digo, e não importa o quanto eu grite ou diga baixinho que te amo, não importa quantas vezes eu nos lembre como era bom acordar juntos, e não importa o número de vezes que eu te peça pra cuidar de mim… As coisas mudaram, mas eu não mudei. Você sabe que tem nas mãos um coração inteiro, e meu. Sabe que por mais que não queira, e que rejeite, que pise, diga que não quer mais, ele é seu. E eu sou sua. Até o dia que alguém me olhar com aqueles mesmos olhos, e me pedir daquele mesmo jeito “fica comigo, mas diz que fica só comigo?”.

Por Maria Eliza Melo Zacarias.

2 years ago
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Mas aí, daqui uns dias… você vai me ligar. Querendo tomar aquele café de sempre, querendo me esconder como sempre, querendo me amar só enquanto você pode vulgarizar esse amor. Me querendo no escuro. E eu vou topar. Não porque seja uma idiota, não me dê valor ou não tenha nada melhor pra fazer. Apenas porque você me lembra o mistério da vida. Simplesmente porque é assim que a gente faz com a nossa própria existência: não entendemos nada, mas continuamos insistindo.

— Tati Bernardi

2 years ago
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O Mundo Todo

Eu arregacei as mangas e me sentei impaciente dizendo a mim mesma: “Hoje eu te escrevo até que me esgotem as palavras. Hoje eu digo o mundo a você, mesmo que não me leia”. E estou aqui, procurando o mundo todo que eu sempre quis te dizer, pra tirar esse sorriso presunçoso dos teus lábios, nem que seja por uns cinco ou dez minutos. Preciso dizer-te que estou aqui, estendida no chão frio para que você passe por cima de mim sem piedade, e disposta a me fazer tapete, chão, sua terra. E te implorar pra voltar a ser a pessoa mais bonita do meu mundo, implorar pra eu ser novamente seu tudo, e não só uma parte. Queria te dizer, em prantos, assim, como estou agora, que te amo de forma única, intensa, e vez ou outra até mesmo insana. Mas que tome cuidado, que cuide e amanse meu coração, que hoje é fera. Fera presa, acuada, mas que a qualquer hora se rebela e sai por aí engolindo outros corações. E quem sabe num desses corações eu ache o abrigo que você tem me negado? Sei que me ama, desse jeito às vezes torto e sem tato, mas sei que é a forma mais genuína de amor. Sabe, queria que soubesses que não sou de ferro, que sou tua, do meu coração apodrecido até a minha mente perturbada, mas que não sou pra sempre. Que tenho dores, e elas são tantas, e que minha alma está escura e não consegue mais ver saída. Queria que soubesses que não vou desistir, que mesmo abalada ainda estou de pé, lutando por mim e por nós. Meio egoísta, pois o faço por saber que o fogo arde forte aqui dentro quando não posso chamá-lo de meu. E eu vim pra te pedir: Me segura? Não como quando sua mão se encaixa perfeita na minha cintura, mas me segura pra sempre? Me segura, segura meu coração, segura eu e minha dor. Não me deixa mais cair… Me deixa dormir nas nuvens só um pouquinho.

Por Maria Eliza Melo Zacarias.

2 years ago
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Publicar um texto é um jeito educado de dizer “me empresta seu peito porque a dor não tá cabendo só no meu”.

Tati Bernardi

2 years ago
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Resto

E você chora, da birra, se debate, implora por atenção, por um mísero carinho que seja, e vê que nada mais vai poder ser como antes… Que o coração tá magoado demais pra voltar a bater com a mesma intensidade, ressentido demais pra amar de novo. Mas ali dentro sempre vai ter aquela faísca, que não deixa a esperança acabar, que te empurra pra frente quando pensa em desistir. Uma pena que já não tenha mais capacidade de virar fogueira. Talvez um fogo baixinho, brando, contínuo, que provavelmente não vai resistir aos ventos que incansavelmente vão tentar extingui-lo. Pois se nem mesmo a fogueira conseguiu, não é? Então vão sobrar as cinzas, e a indiferença (porque inclusive o fogo do ódio, também já parou de arder - há tempos). E o vazio vai voltar pra dentro do peito, pra tudo voltar a ser o nada de sempre, que de alguma forma é confortante, e não arde, não dói, não queima, e fica ali constante, calado, sem choro e nem angústia, sem emoção, sem vida…

Por Maria Eliza Melo Zacarias.

2 years ago
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Pressuposto

Eu espero mesmo que não estejas mentindo para mim. Porque se hoje me dissesses que o céu é púrpuro, mesmo que sem nenhuma veemência, eu acreditaria em cada uma de suas vogais. Acreditaria sorrindo e te amando até o meu último fio de cabelo. E eu estive pensando, e lamentando-me dia desses, constatando não ter nenhum talento, como alguns que pintam, e outros dançam, e outros vivem… Me frustrei antes de perceber que o meu único talento é amar-te,com o maior amor que passou por essa terra – pressuponho. E cuidar-te, e querer saber do teu dia, e das tuas alegrias, e tristezas, e tuas inconformidades, e como se não precisasse pensar antes de tomar a decisão, se pudesse, tomaria tudo que te aflige e me enfiaria goela abaixo, como obrigação de ver-te bem. Porque dentro de mim sei que cabe a dor, tem espaço, e nem sou tão frágil como a minha aparência denuncia. Você não sabe sentir dor, talvez até mesmo por nunca tentar ser livre o bastante pra sentir o peito arder e latejar, como se fosse explodir de tanta angústia e peso. E eu não quero que saiba, não desejo que aprenda a doer-se. Eu não suportaria. Te quero feliz, onde e com quem for, com o mesmo sorriso largo e brilhante de sempre, os mesmos olhos despreocupados e a alma feliz. E mesmo que dependa da minha queda, eu quero te ver no alto.

Por Maria Eliza Melo Zacarias.

2 years ago
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Breve demais

Não quero ser sozinha. Não quero acordar com o despertador e ter que olhar amarga pra pequena tela brilhante do telefone sem que haja uma das suas mensagens de bom dia. Não quero me lembrar por mim mesma dos meus remédios. Não suporto ficar insone na madrugada sem ter a quem endereçar meu desespero infantil. Sou tão pequena… Tão dependente. Tô tentando escrever, mas o seu perfume tá me invadindo e todas as suas lembranças me sufocando. Me traz meu peito de volta. Cola, remenda, eu sei que não tá mais inteiro. Mas por favor, vê se devolve meu coração! É que eu já não agüento esse vazio, tá fazendo frio aqui dentro de mim. Ás vezes, se eu fico bem quietinha, dá pra ouvir o uivo do vento, e suas palavras ecoando e caindo na minha alma gota a gota, como limão em uma ferida exposta. E saber que esse é só mais um sábado ensolarado demais, e que eu vou me repetir aqui, chorando muda e abafada, esperando a sua volta, mesmo sabendo que é mais uma das promessas que você se esqueceu de cumprir. É que você chegou trazendo cheiro de sol, alegria e fim de tarde, porém breve demais pra que eu pudesse retribuir tanto amor, e tempo suficiente pra me ganhar inteira, corpo e alma. Aí foi embora, levou todos os meus clichês; “o brilho no olhar”, “a alegria de viver”, e toda essa merda que, resumidamente, me tirou da vida. Faz tempo que eu tô aqui existindo, fazendo automaticamente o que é da minha obrigação, ouvindo a mesma seleção de músicas que me lembram do quanto você é incrível, e escrevendo – vez ou outra, quando a dor já não cabe mais no peito – esses amontoados de palavras pensadas com cuidado e que no fim se resumiriam numa única frase: Sinto sua falta. Falta de quem você foi um dia. Do que um dia você significou pra mim.

Por Maria Eliza Melo Zacarias.

2 years ago
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E lá vem você dizer que sou uma pessoa triste e rançosa. Sei que pareço infeliz e mal-humorado, mas é só escudo. Minha felicidade é sempre pequena demais pra espalhar por aí. Não tenho culpa se desde criança minha pipa sempre cai no telhado do vizinho.

— Gabito Nunes

2 years ago
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Dreamcatcher

E eu, meio que fora de mim, segurando meu próprio rosto como se ele fosse cair, me perguntei dolorosa: Como é mesmo que se respira? Forcei-me a tomar o ar pra dentro, e o engoli como se fossem lâminas me rasgando sem nenhuma piedade.  Doía como se eu estivesse aspirando ácido. E repeti a ação, como única alternativa que me restava. A decepção se diluía no sangue e incrustava a angústia em cada célula do meu corpo vazio de razão. Não era pedir demais que a dor se abreviasse… E que cedesse, por Deus, só um pouquinho! Empurrei meu corpo, forçando-o a mover-se para longe dali, tirando forças de uma reserva que eu não me lembrava existir. A única coisa que tirava o meu foco da dor  naquele momento – era a ânsia de sumir daquele lugar e daquelas pessoas, que já haviam sumido com meus sonhos e agora me sugavam a vida. E o fiz, sem deixar rastros e sem nenhuma noção do rumo que tomaria. Eu – definitivamente  não sabia onde queria estar. Mas tinha a certeza de que não era ali.

Por Maria Eliza Melo Zacarias.

2 years ago
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Sempre quis ser dessas mulheres imperfuráveis, inatingíveis, inaudíveis e incompreensíveis. Mas nunca consegui. Quando vou ver, já contei minha vida pra primeira pessoa que me deu um pouco de atenção. Já to rindo alto no restaurante porque não me controlei e fiquei feliz demais. Já escrevi um texto sobre o fulaninho da terça passada e publiquei numa revista. E o fulaninho ta morrendo de medo porque escrevi que gosto dele. E se alguém perguntar, vou dizer mesmo que gosto dele. E se ele não gostar de mim, minha tristeza não será segredo para ninguém. E minha pasta de dente é para deixar os dentes branquinhos. E quando vou ver, lá se foi a mulher misteriosa que eu gostaria tanto de ser. Porque eu jamais poderia ser uma.

— Tati Bernardi

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